Apresentação de «Uma Garfada de Sol no Umbigo» de Josefa de Maltezinho

Josefa de Maltezinho é o pseudónimo de Julieta Aleluia, que nasceu no Porto. Muito nova foi morar para Aveiro, cidade onde vive actualmente. Professora do Ensino básico, com formação na cidade de Aveiro, dedicou grande parte da sua vida ao Ensino. Foi em 2007 que começou a pensar em reunir e ampliar todo o trabalho de poesia desde a adolescência.

Josefa de Maltezinho conta que foi sempre uma amante da leitura e da escrita e que foi a extensa biblioteca da família que deu início a este «namoro», nas suas próprias palavras, com os livros e os escritores. Foi, todavia, em 2013 que publicou o seu primeiro livro de poesia, «Água Corrente», seguindo-se-lhe a participação em várias antologias de poesia portuguesas e brasileiras. Pelo caminho, conta-se uma participação na revista Tlon, da Universidade de Letras do Porto. Em 2016, estreou-se como romancista com a obra «Maçã com BIcho», seguindo-se-lhe o livro de poesia «Porque um rio também se cansa» e, em 2018, edita o seu primeiro livro bilingue em Espanha, «Outono em Visita».

«Uma garfada de sol no umbigo» é composta por cinquenta e dois poemas. Comecemos pelo título, bem escolhido e que anuncia ao que vai, partindo de um verso no enigmático poema «O Cordeiro» (59). É uma imagem fortíssima que irradia uma atmosfera de estranheza: «o menino de sua mãe traz uma garfada de sol no umbigo». Aliás, a poesia de Josefa de Maltezinho é uma poesia plena de imagens poéticas que escapam aos clichés e introduzem uma dimensão muito inovadora na sua poética.

Esta colectânea de poesia, que se segue ao Outono em Visita, de 2018, contém ainda um tom melancólico, tal como o descreve o crítico João de Mancelos, numa recensão sobre este livro, «Outono em Visita», intitulada «Outono em Visita/Otoño de Visita», de Josefa de Maltezinho. Logo no primeiro poema, arrancamos com a imagem/verso «as mãos agarradas ao tutano da vida». Neste primeiro poema, intitulado «O Ofício das mãos», há todo um programa que se antecipa aos poemas que se seguem. São mãos duras, como aquelas «tecidas de cuspo e suor, fumo de tabaco», mas também são generosas: «São tão generosas, as mãos (…)»(p.13). O ofício da poesia, tomada no seu sentido de poiesis, também é o de trabalhar manualmente, mas, neste poema, assume-se como metáfora do «fazer poético». Existe neste poema uma dimensão metapoética e que faz com que ele tenha sido, certamente, o escolhido como o primeiro poema do livro.

O tom algo surrealizante dos poemas, nas imagens utilizadas, é uma marca deste fazer poético. Para dar outro exemplo, no poema Os Amigos:

No princípio era a pele em queda livre dos arranha-céus,

o corpo a desenhar-se matiz pelas noites adentro

com pressa de se perder,

o queijo de Niza e as chouriças assadas, os finos e os amendoins

nas esplanadas do Adamastor.(…)

Veja-se como termina: «No princípio era o fogo obsessivo dentro das mãos,/a infinitude como febre.» (p. 14). A infinitude como a vastidão do tempo passado por oposição ao tempo presente é o que nos traz a expressão «No princípio era». O sujeito poético vive aqui uma tensão entre o passado e o presente, o que lhe traz o tom melancólico da poesia, evocando um passado que é da ordem do mito, contido precisamente na expressão referida.

Num poema como «enxame extraviado» (p. 16), porventura uma expressão que pode ser assacada ao filósofo Byung-Chul Han, da sua obra No Enxame (2016), alude-se ao enxame de gente, que poderia também ser a multidão de Edgar Allan Poe ou de Charles Baudelaire. O ruído do enxame que cresce em «rumor incessante de maré, em maré de enchente». O tom alegórico percorre todo o poema, que evoca a «pungência de esgoto» e as «pressas de vómito a céu aberto na calçada», num retrato decadente da noite urbana. Há uma acerada melancolia neste poema, em que só a aurora quebra o sortilégio da noite.

Esse registo alegórico perpassa muitos dos poemas deste livro, como por exemplo, de forma muito evidente, «Table Dance» onde o sujeito poético imagina «uma rapariga um pouco triste» (p. 17) a viver num mundo hostil, de pernas amputadas, a «vender o corpo numa table dance». A violência (psicológica) do poema é óbvia e aborda o tema da protituição.

Em vários títulos como «Mar de Rosas», «Nem água vai nem água vem», «Os cavalos também se abatem», «Há dias assim», «Olhos de ver», «Cenas da vida conjugal» e outros, a autora parte de expressões comuns, do quotidiano, para as subverter poeticamente. Atenta às formas da poesia tradicional, joga com os  ritmos e a fonética, para lhes dar um sentido outro, em poemas narrativos, de verso livre.

A estranheza, ou melhor dizendo, o carácter não óbvio dos poemas, tecido pela analogia e pela metáfora, constitui a encenação criada por Josefa de Maltezinho, num fio constante. Note-se na primeira estrofe de «mar de rosas»:

«Pergunto-me que mar de rosas existe/nesta coisa esférica de ceifar o riso pela raiz;/neste logro que dá pérolas a porcos/como fósforos a velas sem pavio(…)».

O efeito, por vezes barroco, faz-se sentir nesta proliferação de imagens poéticas, como no poema «Entre Aviões»: «a enfiar a cabeça aturdida no fôlego frio do vento,/desatar o nó das asas enquanto espero pela bagagem» ou «do sangue nas artérias de um talvez decimo andar sem elevador». (p.21). São poemas que se lêem à luz de Saturno, para parafrasear a expressão de Susan Sontag, em que a memória é o foco do poema: «não me esquivo de permanecer presa a este foco da memória/do tamanho da tua ausência».

A ausência dos que amamos, como no poema «Os Retratos» (p.28), com a sua atmosfera de passado, pede o seu resgate. Diz o sujeito poético, nesse poema: «O que guardamos daquele tempo nublado,/vento moderado a forte de esquecimento?». Tudo o que guardamos são retratos a preto e branco, vestígios da vida que houve, «documentos amarelecidos com o nome dos nossos,/(…) a maior solidão do mundo, tão fácil de adivinhar.». Ou ainda em «Um rasto de antigamente»(p. 29), aparece o «corpo órfão da casa» e, ainda a propósito disso, a casa é um topos recorrente nesta poética, mas é a casa da memória, do passado, ou então a casa como lugar ansiado, veja-se o poema «Dos quase sonhos impossíveis», em que esta é o mundo da interioridade desejada. Por outro lado, evoca-se também «O jardim secreto dos subúrbios» que «fosse de coração leve e corpo moldado ao silêncio». Existe aqui uma evocação do silêncio, quase como uma liturgia, um segredo que se opõe ao mundo ruidoso e quotidiano. Quase sempre o silêncio com que nos deparamos nesta poética corresponde a um tempo cheio e luminoso, longe da multidão, mais próximo, porventura, dos pequenos gestos, como se pode ver no poema «Rotinas». Estas marcam o tempo dilatado e não o tempo mecânico, interrompem a sucessão: «Pelas dez, precisamente,/o café e a torrada na pastelaria da praça/jamais saberiam ao mesmo a outra hora».

A autora, confessadamente uma grande leitora de poesia, procura construir o seu próprio estilo poético, libertando-o das suas influências. Todavia, do meu ponto de vista, assoma ali a presença de Herberto Helder e das suas metáforas de recorte surrealista. Na forma, distingue-se completamente, referindo-me aqui ao poema narrativo nunca longo, à excepção de um ou outro. Por outro lado, saliente-se a vertente subtilmente irónica da sua poesia.

Nos poemas amorosos, por exemplo, como «O amor por outras palavras» ou «Pérola de Gargantilha» ou, ainda, «Moscas Altivas», o amor é olhado de forma irónica: «Houve um tempo em que amei como nas fitas do cinema»(p. 39) «(os desgostos de amor fazem cicatrizes quelóides/e os que lá iam, lá iam).». Ou, em «Moscas Altivas», «Andava entretida a ver passar moscas no patio interior/ sobre vasos de tulipas domingueiras. / Não contava que o amor entrasse para aquele sitio/onde nunca ninguém vai.» (p. 40).

O tema do amor atravessa vários poemas, mas ele é tomado sempre como desalento ou de forma irónica. Josefa de Maltezinho não cede às armadilhas de um certo lirismo amoroso, que constitui, regra geral, a má poesia. Tome-se o exemplo do poema «Não há amores correspondidos»: «Apeteceu-lhe dizer que não havia volta a dar-lhe,/realmente o amor nada tinha a ver com a reciprocidade/ que se espera dele, /que é um enorme mal-entendido(…)» (p. 43). Nesse sentido, podemos também tomar o poema «Asas de galo Pedrês» ou «Queria que me desses razão». Há sempre um desencanto relativamente ao amor ideal, transformando-o em algo que pertence aos outros e nunca ao sujeito poético: «Queria que me desses razão quando digo/ que o amor dos outros é sempre o mais sublime,/o mais lamechas, o mais selvagem(…)» (p. 45).

Um dos aspectos mais interessantes desta poesia está na subversão das expressões comuns, através da ironia. Desconstruindo essas expressões que usamos no dia a dia, Josefa de Maltezinho dá à sua poesia esse lado de non sense que afina a ironia da sua poética e a conduz por caminhos completamente diferentes da poesia que se faz hoje em dia. São várias e extremamente diversificadas as referências à tradição literária nos poemas, mas estas surgem misturadas com a sabedoria popular, com o discurso publicitário e com os lugares comuns do discurso popular. A forma como Josefa de Maltezinho olha para a linguagem, a maneira como a experimenta, de modo persistente, questiona, desloca e analisa, nada tem de inocente ou, sequer, de fútil, mas constitui uma riqueza que a destaca da poesia actual. E nunca será demais ressaltar a grande qualidade da sua poética, transparente e avessa aos clichés.

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