Errância

De olhos pregados ao azul do Atlântico, Irene voltou a Angola. Deixara tudo para trás, embarcara e resolvera fazer a viagem de barco, para sentir a errância com mais nitidez. Vários dias no mar e era a primeira vez que fazia aquela viagem, contornando a costa africana, ao largo. Por vezes, avistava o contorno amarelado das ilhas, as palmeiras verdes balançando ao longe como cabeleiras fartas e caprichosas.

Desde a morte de Francisco, morrendo-lhe nos braços com a frase: “de tudo, de tudo, o cheiro da savana pelo amanhecer”, Irene nunca mais voltara a ser a mesma. Uma estranha inquietação dominava-a, um desejo absurdo de revisitar e reconquistar tudo o que havia perdido, tudo o que jamais havia possuído, revolvia-lhe o corpo nervoso e magro, como um desejo imperioso.

Sentada no convés do navio, debaixo da cobertura que protegia os tripulantes do calor abrasador, ela tinha as mãos postas à sua frente, cruzadas, como dois pássaros indecisos. Seguia com o olhar, a rota do albatroz pesado e que sobrevoava o navio, com as suas asas que pareciam não ter fim, totalmente abertas, deixando as membranas cinzentas à vista. O calor deixava-a impossibilitada de se mover. Agarrada à cadeira, o corpo mole, as pernas a liquefazerem-se, o suor escorrendo. Porém, algo havia nela que a obrigava a permanecer no mesmo sítio, um insecto louvando o sol. A tristeza antiga, aquela tristeza tão sua, tão solitária, criava entre ela e a realidade uma barreira, uma parede de vidro, onde não ousava sequer colocar as mãos, com medo de forçar tão frágil barreira. Afundava-se lentamente na tristeza, a mesma tristeza que conhecia nos olhos de Francisco, a mesma solidão. A mesma noite escura do olhar, dilacerada pela luz da beleza.

A memória de Laura incomunicável, Laura esquecida num banco de jardim do relvado, alheia a tudo o que a envolvia, totalmente fechada, aflorou-lhe o pensamento. Tinha medo de acabar assim. Mas desejava-o, ao mesmo tempo. Acabar fechada numa noite sem palavras, inconsciente e perdida de vez para a lucidez. Sem aquela ferida habitual, a fissura ensanguentada da sua visão desiludida do mundo. Sem dor. Uma morte por dentro sem morrer. Não conseguia evocar Laura com clareza, não conseguia lembrar os seus traços com exactidão, não queria senão conservar a memória doce de Laura, não a Laura que conhecera da infância, permanentemente a ralhar, sufocada pelas suas ambições mesquinhas, devorada pela necessidade constante do sucesso social. Não a Laura das pressas, das obrigações constantes, a Laura da provocação, ansiosa e incompreensiva, de mudanças bruscas de humor.

A memória de Laura atenuara-lhe a sua agressividade, a sua violência mansa de todos os dias, uma imagem de uma velha mulher, com uma flor na mão, um pequeno malmequer a que arrancava ritualmente as pétalas, murmurando: “bem me quer, mal me quer…”. Uma toada interminável, dir-se-ia uma criança pequena fechada no seu jogo, indiferente ao passar do mundo. E a memória avivou-se, trazendo-lhe Laura na sua beleza espampanante, a sua beleza revestida de pestanas artificiais e longas, os seus lábios carnudos pintados de batom vermelho-vivo. Imediatamente rejeitou todas essas imagens, as cores fortes que ela gostava de vestir, as pinturas e os saltos altos, o seu rodopio incessante. Queria afastar essas imagens, mas elas voltavam-lhe dolorosamente, repetindo a imagem que Irene sempre recusara para si, a de uma mulher estereotipada, fabricada e produzida para agradar aos homens.

Ouvia falar inglês à sua volta. Um inglês perfeito e britânico, num tom ligeiramente afectado. Aquela voz trouxe-a novamente à realidade. Despertando para as normas, as convenções. Aquele era exactamente o tom que Laura usaria para falar. Um tom estudado para criar ressonâncias e impressionar o ouvinte. Preso das aparências. Querendo mostrar o rosto social e escondendo as imperfeições, as pequenas imperfeições das palavras e dos gestos ditados no dia-a-dia. As pequenas imperfeições que tornam as pessoas humanas, frágeis. Laura jamais quereria parecer frágil aos olhos de quem quer que fosse. Menina educada em colégios, sabia que a vida social se baseava nesse equívoco, o que se mostra e não o que se é. E depois, de tanto esconder a sua fragilidade, caíra a pique, como uma ave que tivesse perdido de súbito as asas. Que algo as tivesse cortado ou queimado. Achava que esta imagem poética era a que melhor servia a Laura: “asas queimadas”.

No recanto escuro onde ela habitava agora, uma morada inacessível e inóspita, não era possível entrar. Entram os seres que queimam as suas asas, deixando de poder voar, mantendo-se na quietude do seu movimento. E a herança de Laura, a sua loucura, de onde apenas sobrava o seu belo e sereno olhar da cor das folhas das oliveiras em Junho, debatia-se com ela como um fantasma. Ela própria não era suficientemente frágil para desistir de ser, voltando o olhar para dentro. Uma lucidez permanecia resistente, mas a doçura da casa onde Laura habitava chamava-a. Permanentemente. E ela resistia, sem saber porquê, resistia ao apelo do abismo azul e luminoso onde se perdera Laura.

O azul do mar era tão intenso que magoava os olhos. Feridas de espuma branca, sulcos puros iam ficando para trás, sempre para trás. Aquelas “feridas de espuma” suave e branca pareciam-se com o seu próprio passado. Pouco a pouco, ela libertava-se desse passado. Pela primeira vez pensara em Laura sem sentir raiva, sem sentir o tão antigo incómodo de não se reconhecer como sua filha. “O tempo conserva enquanto destrói”, pensou, relembrando o verso de Eliot, e a sua memória conservava agora a imagem mais terna de Laura, a sua solidão triste num banco de jardim, desfolhando a sua cantilena infindável. Reconciliava-se com Laura e apercebeu-se disso, como uma evidência. Perdoava-lhe tudo, perdoava-lhe que ela a tivesse abandonado quando dela precisava, deixando-as às três ao abandono da sua adolescência.

Lembrava-se de uma única vez que a vira chorar e enternecera-se dessa vez. Porque Laura jamais seria capaz de chorar. Chorar é um acto de debilidade. E ela ficara paralisada a vê-la, a lava das lágrimas a brotar-lhe, salgada e incontrolável pelo rosto abaixo. Era a única imagem verdadeiramente real que guardava dela, sem raiva. Quando lhe mostrara a dor. E agora a memória queria reter o sal, o olhar abandonado, a secreta luz do olhar de Laura. Sentiu uma paz enorme, um lençol de doçura cobrindo-lhe o corpo, suavizando tudo.

O sol incidia nos pequenos peixes que saltitavam, fazendo cintilar as suas escamas como ouro. E os reflexos estilhaçados de azul e pequenas ondas a rebentar deixavam-na extasiada. Luz, sempre, luz a voar para dentro das coisas. luz a saltar, inundando o ar azul. Aquele espectáculo comovia-a. O outro lado da sua tristeza suspendia-se na luz das pequenas coisas. A luz dos coágulos de chuva, a luz do amanhecer, a luz em estado nascente e perfeito.

E compreendeu que estava a caminho de algo irreversível. Um círculo que se fecha lentamente. Um círculo cumprido, ditado pelo seu olhar solitário. Ela nunca mais poderia voltar atrás e sentia que as palavras se tornavam um impedimento, um empecilho para a sua vida. Compreendeu que poderia passar o resto da vida sem falar, nenhuma língua lhe servia, não conseguia chegar a ninguém, tornara-se absolutamente desnecessária. Uma peça a mais no puzzle, que vinha com defeito de fabrico. Uma peça que não encaixava em qualquer lugar. As suas arestas tão selvagens não encaixavam absolutamente em lado nenhum. E mesmo o tomar consciência disso não a desesperava. Era um facto incontornável, que ela era obrigada a aceitar. Uma inevitabilidade.

O nome “Luana” subiu-lhe aos lábios como uma exigência. Mas teimou e ficou à beira dos seus lábios. “Luana-mãe”, mentirosa feiticeira de pernas e ancas roliças. Mentirosa que lhe havia enchido a cabeça de mentiras e de sonhos inexistentes. “Não há deuses no país do silêncio”, lembrou-se de pensar, como se falasse agora com ele, atravessando o oceano de tempo que as separara, para sempre. “Luana-mãe, como eu gostava de enfiar os meus cabelos no teu colo, enquanto me cantavas”, a vida abandonara-a a um canto, deixando-a como uma flor negra, à beira do deserto. Clamando por água.

“E afinal tudo isto não passou de um sonho, Luana, porque me encheste a cabeça de maluqueiras e vinha o tolo Félix com a sua gaita de beiços e a luz desaparecia tão mansamente por detrás da mansarda…Luana, onde está a minha cadeira de baloiço, a minha infância, onde páram todos os meus desejos?”

E afinal ela sabia-o, sabia-o, sentia. Luana protegera-a sempre de si própria, do perigo que ela constituía para si, toda aquela raiva selvagem a crescer dentro dela, os desejos de rapaz, contidos num corpo de rapariga. As estórias de Luana haviam-na alimentado sempre, um mundo perfeito e suspenso, um jardim escondido nas travessuras do tempo.

Era com tanta nitidez que ouvia os gritos de Beatriz, as brincadeiras sem fim de Joana. Sempre a roubar-lhe a cadeira de baloiço, enfiando nela o rabo gordo e balançando, balançando, até a deixar exasperada. “Sai, sai daí”, ouvia o grito dilacerado pelo ar, enquanto lhe puxava o braço e tentava arrastá-la pesadamente da cadeira. E Luana intervindo, sempre, o sorriso permanente e a paciência morando nos seus lábios de preta feia.

Faltava ainda muito tempo para desembarcar em Luanda. E os dias, sabia-o, passá-los-ia nessa revisitação constante, com as pessoas a gritar-lhe no cérebro, as imagens esquartejadas que teimavam em não se juntar, as coisas que resistiam a ser lembradas. Vivia com todas essas vozes no cérebro. E o silêncio de Francisco. O constante silêncio de Francisco, perturbado pela mudança brusca de vida. O silêncio constante de Francisco que amara aquela terra como ninguém e que tivera de voltar à pressa, para um país pequenino e apertado, sem liberdade. Um país onde as pessoas não conheciam o espaço vasto e ilimitado, onde as pernas altas dos flamingos apenas podiam ser vistas no jardim zoológico. Um país onde o tempo tinha horas para cumprir e as pessoas viviam em cidades como casulos pequenos e apertados, larvas permanentes à espera de ser borboletas, trabalhando como formigas incansáveis para chegar ao fim do dia extenuadas e dizerem: “Uf! Mais um dia”.

O sono fazia pesar as pálpebras. O calor alastrando pelo rosto. Uma brisa tão ligeira, atravessando o ar, tocou-lhe o rosto. Uma pluma de ar no rosto, pensou.

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