Dia por ama

Dia Por Ama

Autores: Ana Calhau e Eduardo Prado Coelho

Texto Editora, Lisboa, 2004.

 

 

Dia por Ama não é apenas um livro de paixão e intimidade, escrito a duas vozes, por Ana Calhau e Eduardo Prado Coelho, mas um objecto estético, no pleno sentido do termo, apelando à leitura, mas igualmente à contemplação e ao jogo da imaginação. E se esse efeito é plenamente conseguido, num trabalho gráfico de excelente qualidade, deve salientar-se o notável trabalho de Ana Calhau, relativamente à concepção gráfica da obra, paginação, fotografias e ilustrações que a valorizam substancialmente. É deste entrelaçamento orgânico entre a imagem e a escrita que nasce, também, a intensidade de Dia por Ama.

Mais conhecida pela sua actividade de artista plástica e, nomeadamente, como designer, Ana Calhau surpreende o leitor pelo fulgor imagético da sua escrita, cuja componente alucinatória evidente golpeia frequentemente o texto e torna-o inesperado. Num território em que já não é possível separar ou distinguir narrativa de poesia, a sua escrita não obedece a regras nem sequer a uma unidade narrativa, colocando-se sob o signo da errância e da descontinuidade do fragmento: “Sou a paixão pelo não dito. Todas estas experiências me são equivalentes e quanto mais rápidas forem, melhor é o estado de consciência. O absurdo, o implausível, a esterilidade magnífica de uma implacável lucidez à deriva, e acima de tudo, a permanência do sono, da fome e da velocidade”. São textos de uma beleza feroz e visceral, cujo centro de gravitação se encontra na musicalidade das palavras, no seu ritmo e respiração própria, no seu timbre muito peculiar. Inquietude, vertigem e onirismo são fluxos vibratórios que pulsam a todo o instante nestes textos, evocando uma tradição lírica portuguesa, tomando como casos exemplares Herberto Helder, Luís Miguel Nava ou, ainda, Daniel Faria.

E se toda a palavra, como o afirma Blanchot, é violência, ela é tanto mais sentida quanto mais secreto e poético o seu coração, numa dilaceração alegórica que a percorre com o seu sopro: “Aproximei-me sempre pois quiseste ver como eu engoliria o vidro e aí…aí conheceste todos os meus órgãos, a arquitectura do meu pulso, o toque das teclas, o vermelho do sangue e o pó do vermelho.” E a violência alegórica desta escrita – e simultaneamente redentora – prende-se com o desejo, já não de “reproduzir ou de inventar formas, mas de captar forças”, para usar as palavras de Deleuze, experienciando os limites da linguagem e procurando captar a sua ressonância ou a marca da obscuridade essencial que as coisas e os seres comportam, no seu excesso.

Eduardo Prado Coelho surpreende-nos por todas as razões: pela ousadia num campo ficcional de extremo risco, quando nos tínhamos habituado à sua escrita ensaística e de cunho característico, no âmbito da crónica e da crítica literária. Este livro revela um talento inegável no campo da ficção e, particularmente, no domínio da prosa poética. A capacidade de redesenhar um percurso e de reinventar-se é, como se sabe, apanágio de poucos autores. E é, a todos os títulos, admirável no modo como se expõe e conquista esse desafio. Oscilando entre o registo poético e narrativo, é legítimo afirmar a existência de uma continuidade e de uma unidade que conformam a sua escrita. São textos sublimes e que nos deixam no desamparo, perpassados pela ternura de alguém que ama desmesuradamente as palavras e que procura, a cada momento, alcançar a serenidade do amor: “Sentimento estranho, intratável: tu és o ponto mais alto e o ponto final. Nenhum processo de declínio, nenhuma queda, nenhuma degradação. Apenas uma apoteose. Percorreu-se o círculo do amor, o círculo do quotidiano, o círculo das viagens, o círculo das mãos que se tocam, o círculo das palavras ciciadas no arco mais aceso da noite, o círculo do sexo, o círculo do sono em concha.” São imagens fulgurantes as que revelam, como um sulco secreto ou uma linha de água subterrânea, a celebração e a exaltação do amor, tropeçando na felicidade de quem ama despojadamente e eleva o olhar para o outro, procurando no amor essa dimensão aurática e de uma nostalgia absoluta. Esse que reconhece a pobreza e a fragilidade do amor como a mais elevada das vocações, como no magnífico poema em que se diz: “Feliz é aquele que vê o espaço tornar-se azul à sua volta./Feliz é aquele que sabe que pode morrer depois de ti – porque conheceu o absoluto da vida, e por isso até na morte pode arder./ Feliz é aquele que sente pelo vidro a boca que diz que te ama./ Feliz é aquele que sabe que no dia seguinte conseguirá o que ainda hoje não tem sentido – amar-te sempre mais.”. Felizes daqueles que sabem que só o amor pode redimir o animal que somos.

Maria João Cantinho

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